Observador brasileiro registra colônia de guácharos em caverna do Equador

  • 08/01/2026
(Foto: Reprodução)
Observador brasileiro registra colônia de guácharos em caverna do Equador Ubaldo Bergamin Filho O silêncio da caverna é quebrado por sons curtos que se espalham pelas paredes de pedra. Eles não vêm do vento nem da água, mas de uma ave pouco conhecida, que vive quase toda a sua vida no escuro. Em 2019, o observador e fotógrafo Ubaldo Bergamin Filho teve a chance de presenciar esse espetáculo natural ao visitar a Cueva de los Tayos, nos arredores de Quito, no Equador, onde registrou uma colônia de guácharos (Steatornis caripensis) em plena atividade. A relação de Ubaldo com as aves começou de forma simples, no interior de São Paulo. Morador de Tietê, ele conta que sempre se interessou pela vida selvagem, mas foi em 2008, ao comprar uma chácara com os irmãos, que passou a observar os pássaros de maneira mais sistemática. “Comecei oferecendo frutas, água e depois quirera. Percebi que as aves vinham com facilidade e passei a fotografar ali mesmo, nas cevas”, lembra. A primeira câmera ainda era analógica, com filme de rolo. Com o tempo, a observação virou viagem. Ubaldo já percorreu 17 estados brasileiros fotografando aves e esteve também em países como Peru, Uruguai, Argentina, Colômbia e Estados Unidos. O avistamento dos guácharos A ida ao Equador aconteceu em agosto de 2019, durante uma expedição de onze dias pelas regiões de Napo e Pichincha, organizada pelo guia e fotógrafo Adrian Eisen Rupp, com foco exclusivo na observação e na fotografia de aves. A visita à Cueva de los Tayos fazia parte do roteiro. Localizada em meio à floresta tropical equatoriana, a cerca de 460 quilômetros de Quito, a formação é considerada uma das cavernas mais enigmáticas da América do Sul. A Cueva de Los Tayos fica localizada em meio à floresta tropical equatoriana, a cerca de 460 quilômetros de Quito MezzoforteF/Wikimedia Commons Estima-se que tenha cerca de 200 milhões de anos, sendo uma verdadeira testemunha da história geológica da Terra. A Cueva de los Tayos é uma cavidade profunda na rocha, com paredes quase verticais e linhas que parecem esculpidas com extrema precisão. O local carrega uma aura de mistério e abriga uma biodiversidade altamente especializada, adaptada à escuridão permanente. “Eu nem esperava fotografar bem o guácharo, por toda a dificuldade com a falta de luz”, conta Ubaldo. Para chegar ao interior da cavidade, foi necessário o acompanhamento de um guia local. O grupo avançou apenas até um ponto onde uma abertura natural no teto permitia a entrada de alguma luz. “O guia iluminava os pássaros com uma lanterna para ajudar no foco, e aí a gente fotografava”, explica. O local recebe o nome justamente por servir de abrigo para os guácharos, aves noturnas de plumagem marrom e aspecto oleoso, que utilizam cavernas profundas para se reproduzir e passar grande parte da vida. A espécie ocorre também em regiões da Colômbia, Venezuela, Peru e Bolívia, sempre associada a ambientes cavernosos. O ambiente impõe sensações marcantes. O cheiro é forte, resultado do acúmulo de excrementos, e o chão fica coberto por sementes descartadas pelos próprios guácharos. O guácharo ocorre, de forma não contínua, do Panamá, Guiana e Venezuela (incluindo a ilha de Trinidad no Caribe) até Bahia (Brasil), Equador, Colômbia, Peru e Bolívia, em altitudes de 7 a 3.500 metros Ubaldo Bergamin Filho “Eles comem a parte carnosa dos coquinhos e jogam fora a semente, que fica toda espalhada pelo chão”, descreve o fotógrafo. “O que mais me surpreendeu foi o tamanho e o bico adunco, parece até de um gavião. Eles chegam a meio metro de comprimento e têm quase 90 centímetros de envergadura”. Sobre a espécie Segundo o ornitólogo Thiago Vernaschi, o guácharo é uma das aves mais peculiares do mundo. “É uma espécie excepcional, no sentido literal da palavra. Ocorre exclusivamente no norte da América do Sul, tem hábitos noturnos e pertence a uma linhagem evolutiva muito antiga, com fósseis de cerca de 50 milhões de anos”, explica. Descoberto cientificamente por Alexander von Humboldt, o guácharo também é conhecido como tayo em vários países sul-americanos. Ecolocalização A vida no interior das cavernas exige adaptações extremas. Para o ornitólogo Thiago Vernaschi, ambientes como a Cueva de los Tayos são fundamentais para a sobrevivência da espécie. “É nessas cavernas que o guácharo se reproduz e cria os filhotes”, destaca. Uma das adaptações mais impressionantes do guácharo é a capacidade de usar a ecolocalização, um comportamento raro entre as aves. “O guácharo produz vocalizações curtas, como cliques, que se chocam com as superfícies da caverna e retornam como eco. Isso permite que a ave compreenda o ambiente físico ao redor, mesmo na escuridão total”, detalha Thiago. O guácharo produz vocalizações curtas, como cliques, que se chocam com as superfícies da caverna e retornam como eco Ubaldo Bergamin Filho Estudos experimentais mostram que a espécie consegue detectar obstáculos de poucos centímetros apenas com esse recurso. Além da ecolocalização, o guácharo também enxerga muito bem no escuro. “A pupila pode chegar a cerca de 9 milímetros, mas o principal está na retina. Os bastonetes são extremamente pequenos e organizados em múltiplas camadas, atingindo uma densidade de até um milhão por centímetro quadrado”, explica o ornitólogo. Segundo ele, essa organização não tem paralelo em outros animais terrestres, sendo semelhante apenas à de peixes de zonas abissais Os filhotes permanecem por meses dentro das cavernas e acumulam grandes reservas de gordura durante o desenvolvimento. “Essa gordura era tradicionalmente utilizada por povos indígenas tanto na culinária quanto para acender tochas”, afirma Thiago. Essa relação histórica fez com que o guácharo estivesse sempre presente no conhecimento popular das comunidades da região. Outra característica singular é a alimentação. O guácharo é a única ave noturna frugívora conhecida. “Ele se alimenta de frutos, principalmente de palmeiras ricas em gordura, e pode percorrer até 100 quilômetros em uma única noite”, explica o ornitólogo. Esse comportamento faz da espécie um importante dispersor de sementes e um agente fundamental para a manutenção de diferentes ecossistemas. Outras espécies A experiência com os guácharos foi apenas uma parte da viagem de Ubaldo pelo Equador. Ele também registrou espécies raras, como o galo-da-serra-andino, cinco espécies de grallarias no Refúgio Paz de las Aves e uma grande diversidade de beija-flores. Galo-da-serra-andino (Rupicola peruvianus) Ubaldo Bergamin Filho Um dos momentos mais especiais foi o registro da coruja de San Isidro, ainda sem espécie definida. “Consegui fazer quatro fotos numa única chance, numa noite chuvosa, bem na hora do jantar”, recorda. Passados alguns anos, a visita à Cueva de los Tayos segue como um marco. “Toda viagem muda a gente. Cada experiência aumenta o respeito pela natureza, pelos animais e pelas aves”, resume Ubaldo. Toucan barbet (Semnornis ramphastinus) Ubaldo Bergamin Filho VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/01/08/observador-brasileiro-registra-colonia-de-guacharos-em-caverna-do-equador.ghtml


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