Injeção contra HIV: entenda por que Campinas é uma das 7 cidades do Brasil onde Fiocruz aplicará testes do medicamento

  • 27/01/2026
(Foto: Reprodução)
Droga, chamada comercialmente de Sunlenca, é um tratamento injetável aplicado somente duas vezes por ano. AP via Business Wire Campinas é uma das setes cidades do Brasil onde a Fiocruz conduzirá testes para avaliar a viabilidade do medicamento injetável lenacapavir ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS). A medida visa ampliar os métodos de prevenção ao HIV e foi divulgada após Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar, no último dia 12, o uso da injeção como profilaxia ao vírus. Segundo a Fiocruz, a unidade escolhida para realização dos testes em Campinas é o Centro de Referência em Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), HIV/Aids e Hepatites Virais, que fica na Rua Regente Feijó, 637, no centro da cidade. Ela foi escolhida por seu histórico de participação em projetos de prevenção ao HIV conduzidos pela Fiocruz. A previsão é de que o início dos testes em Campinas comecem em março. 📍As demais cidades selecionadas para os testes são: São Paulo (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Salvador (BA) e Manaus (AM) — entenda abaixo por que essas cidades foram escolhidas. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp A medicação, que tem alto custo (variando entre R$ 130 mil e R$ 200 mil por pessoa por ano, conforme a cotação do dólar), foi doada pela fabricante Gilead Scientes para realização do teste por dois anos e chegou à sede da fundação, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira (23). No total, serão atendidos 1500 participantes em todo o Brasil. ⚠️A Fiocruz destaca que não haverá recrutamento ativo para o estudo. A participação será restrita a pessoas que procurarem espontaneamente as unidades de saúde e estiverem dentro do público-alvo. O g1 conversou com a médica infectologista Brenda Hoagland, coordenadora clínica do projeto pela Fiocruz, que explicou em detalhes como será a implementação dos testes. Veja abaixo. O que é o lenacapavir? Qual o objetivo dos testes com a medicação injetável? Injeção contra HIV é vacina? Como serão conduzidas as aplicações? Quantas pessoas devem participar? Por que essas cidades foram escolhidas? O que diz o Ministério da Saúde? Saiba como a profilaxia pré-exposição (PrEP) protege contra o HIV O que é o lenacapavir? O lenacapavir é um antirretroviral inovador da farmacêutica Gilead Sciences, com ação prolongada para a prevenção do HIV. Ele é um medicamento injetável (ou seja, aplicado por injeção, mas não se trata de uma vacina) usado como profilaxia de pré-exposição (PrEP) ao vírus e administrado apenas duas vezes por ano, o que representa uma mudança significativa em relação aos comprimidos de uso diário. 💊ENTENDA: Disponível no SUS desde 2018, esses remédios são tomados (PrEP diária e sob demanda) antes da relação sexual, o que permite ao organismo estar preparado para enfrentar um possível contato com o HIV. Atualmente, cerca de 140 mil pessoas utilizam a PrEP diariamente no país. O principal diferencial do lenacapavir, contudo, está na duração da proteção. Enquanto a PrEP oral exige uso frequente e contínuo, o medicamento injetável mantém níveis de proteção elevados por vários meses após a aplicação, o que pode facilitar a adesão e reduzir falhas no uso. Estudos clínicos de grande porte mostraram sua eficácia próxima de 100% na prevenção do HIV, inclusive entre mulheres, grupo que historicamente enfrenta mais limitações com os métodos disponíveis (entenda mais abaixo). Por esses resultados, a Organização Mundial da Saúde passou a recomendar o lenacapavir como opção adicional de PrEP e o classificou como a melhor alternativa disponível enquanto ainda não existe uma vacina contra o vírus. Veja como funciona o lenacapavir. Arte/g1 - Thalita Ferraz Qual o objetivo dos testes com lenacapavir? Apesar de o lenacapavir já ter eficácia comprovada em estudos internacionais, o foco da Fiocruz agora é outro: entender se o medicamento pode ser implementado como política pública no SUS. Segundo a médica infectologista Brenda Hoagland, o Brasil já oferece a profilaxia pré-exposição (PrEP) oral gratuitamente desde 2018, mas o acesso ainda não avançou como o necessário para conter a epidemia do HIV, especialmente entre os mais jovens. “A gente não está testando eficácia, a gente já passou dessa fase. Agora a gente quer ver a viabilidade de oferecer uma profilaxia injetável. O objetivo desse estudo hoje é avaliar como a gente também poderia ofertar uma nova modalidade de PrEP, que é a PrEP injetável com lenacapavir”, explica a médica. A proposta é analisar, na prática, se a versão injetável — aplicada apenas duas vezes ao ano — pode beneficiar pessoas que têm dificuldade de aderir ao uso diário de comprimidos. 📈Os dados comprovam. Os casos de infecção por HIV entre adolescentes de 13 a 19 anos em Campinas cresceram 75% de 2024 para 2025, segundo dados divulgados pela Secretaria de Saúde do município. Além disso, a faixa de 20 a 29 anos concentra o maior número de novos casos na cidade. Leia também: Lenacapavir: qual o futuro do medicamento com quase 100% de eficácia na prevenção do HIV; veja em 10 tópicos Injeção contra HIV não é vacina Com a aprovação da Anvisa, o medicamento passou a ser popularmente chamado de “injeção contra o HIV”, o que gerou dúvidas sobre se ele funcionaria como uma vacina — o que não é o caso. “Não, isso não é uma vacina. A gente ainda não tem uma vacina eficaz contra o HIV. Vacina é algo que a gente aplica na pessoa e a pessoa vai desenvolver no corpo dela defesas contra uma determinada doença. O que a gente faz com a PrEP injetável, a lenocatavir, na verdade, ele é uma prevenção”, esclareceu Brenda. A médica explicou que o lenacapavir é uma profilaxia, ou seja, um medicamento que protege enquanto está ativo no organismo. A proteção só é mantida se a aplicação for feita regularmente, a cada seis meses, sem atrasos. Como serão conduzidas as aplicações? O lenacapavir é aplicado por injeção subcutânea, podendo ser administrado no abdômen, parte posterior do braço ou glúteos. Cada dose garante proteção por cerca de seis meses. De acordo com a Fiocruz, os estudos indicam que o medicamento é bem tolerado. Os efeitos colaterais mais comuns são locais, como dor, desconforto ou formação de uma pequena nodulação no ponto da aplicação. Por isso, os profissionais de saúde que aplicarão o medicamento passam por treinamento específico, e o produto vem acompanhado de uma agulha própria, definida pelo fabricante. Quem poderá participar do estudo? O estudo não fará recrutamento ativo. Ou seja, não haverá busca direta por participantes. Poderão participar pessoas que já procurarem espontaneamente as unidades de saúde envolvidas para testagem, PrEP ou outras formas de prevenção, e que façam parte do público-alvo da pesquisa. Público-alvo: homens gays e bissexuais, pessoas não binárias identificadas como do sexo masculino ao nascer e pessoas transgênero, com idades entre 16 e 30 anos. (Para participar do estudo, os voluntários precisarão realizar testes e apresentar resultado negativo para o vírus HIV). A escolha dessa faixa etária se deve ao aumento de novos casos de HIV entre adolescentes e jovens no Brasil nos últimos anos. A coordenadora clínica do projeto reforçou que esse público exige atenção especial nas estratégias de prevenção. Por que essas cidades foram escolhidas? Em geral, as cidades foram incluídas no estudo por já ter histórico de participação em projetos de prevenção ao HIV conduzidos pela Fiocruz. É o caso de Campinas, cuja unidade escolhida é o Centro de Referência em IST, HIV/Aids e Hepatites Virais, no Centro da cidade, que já atua em iniciativas semelhantes desde 2018. Além disso, a cidade integra uma rede estratégica de centros urbanos selecionados justamente por atenderem populações com maior vulnerabilidade e demanda por prevenção combinada. Já São Paulo foi incluída por ter uma unidade móvel de prevenção ao HIV. "Essa unidade móvel da cidade de São Paulo já oferece PrEP oral. Seria viável oferecer uma PrEP injetável? Nessas unidades móveis a gente acessa mais populações que têm uma maior vulnerabilidade de chegar a uma unidade física? É o que a gente quer investigar", indaga a coordenadora clínica. Segundo a médica, a inclusão de Nova Iguaçu se deu pelo fato de a unidade atender muitos municípios vizinhos da Baixada Fluminense. Quantas pessoas devem participar? Ao todo, o estudo prevê a participação de 1.500 pessoas nas sete cidades. O medicamento será doado pela fabricante Gilead para uso exclusivo no projeto, que terá duração de dois anos. Cada participante poderá receber até quatro doses, considerando aplicações semestrais. Custo e efetividade Além da logística de aplicação e da adesão dos usuários, o estudo também vai analisar a custo-efetividade do lenacapavir. Apesar dos medicamentos, nesta fase de teste, serem doados pela fabricante, a médica infectologista ressalta a importância de entender se o investimento no medicamento pode, de fato, reduzir novos casos de HIV, especialmente por ser muito caro. Nos Estados Unidos, o lenacapavir é vendido por valores que variam entre US$ 25 mil e US$ 28 mil por pessoa ao ano para uso como PrEP, podendo chegar a US$ 40 mil a US$ 44 mil anuais em indicações terapêuticas. “A gente sempre inclui um estudo de custo-efetividade, que é um estudo que diz: se eu comprar o produto para aquelas populações que realmente podem se beneficiar, isso é custo efetivo? Se eu comprar, eu realmente vou reduzir os casos novos de HIV?”, explica Brenda Hoagland, coordenadora clínica do projeto pela Fiocruz. O que diz o Ministério da Saúde O Ministério da Saúde afirmou, em nota, que a pesquisa com a Fiocruz contribui para a produção de evidências e o aprimoramento das políticas de profilaxia pré-exposição (PrEP), incluindo subsídios técnicos para a PrEP injetável no SUS. A pasta ainda indicou que para que haja incorporação do lenacapavir ao SUS, é necessária a aprovação na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que analisa critérios como eficácia, segurança e análises de custo-efetividade, e que não há, até o momento, nenhum pedido de análise para incorporação do lenacapavir. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias da região na página do g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/01/27/injecao-contra-hiv-entenda-por-que-campinas-e-uma-das-7-cidades-do-brasil-onde-fiocruz-aplicara-testes-do-medicamento.ghtml


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