70% dos abrigos para crianças e adolescentes de Campinas estão lotados ou acima da capacidade, diz Conselho Tutelar
06/01/2026
(Foto: Reprodução) Levantamento mostra superlotação de abrigos para crianças e adolescentes em Campinas
Um mapeamento feito pelo Conselho Tutelar de Campinas (SP) aponta que 12 de 17 locais de acolhimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e violência estão lotados ou acima da capacidade. O número representa 70% das entidades mapeadas.
O levantamento foi obtido com exclusividade pela EPTV, afiliada da TV Globo, com base em informações de dezembro de 2025. O balanço não inclui três entidades: Centro Municipal de Proteção à Criança e ao Adolescente (CMPCA) e duas casas do Abrigo Água Viva, que não compartilharam informações com o Conselho Tutelar.
No entanto, mesmo sem os dados dessas três entidades, o Conselho Tutelar afirma que a situação é semelhante nesses locais. Em junho de 2025, o g1 divulgou a situação do superlotação do abrigo municipal (veja aqui).
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Segundo o conselheiro tutelar Adecir Mendes Fonseca, a situação expõe a falência das políticas preventivas de apoio às famílias de Campinas.
"É muito preocupante. Esse balanço representa uma falha e um colapso na assistência e no tratamento com a criança e adolescente que é encaminhado por um processo de abrigamento institucional", afirma o conselheiro.
A secretária Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro afirmou que "nenhuma criança deixou de ser acolhida", mesmo diante da superlotação. Ela negou omissão do poder público e afirmou que a prefeitura estuda criar mais vagas para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Confira abaixo a situação dos abrigos e casas de acolhimento mapeados.
Associação de Educação do Homem de Amanhã (AEHA)
Casa 1: 80% de ocupação
Casa 2: 80% de ocupação
Casa dos Menores de Campinas
Casa 1: 100% de ocupação
Casa 2: 90% de ocupação
Casa 3: 90% de ocupação
Casa 4: 100% de ocupação
Casa 5: 100% de ocupação
Abrigo: 98% de ocupação
Casas de passagem
Casa 1: 185% de ocupação
Casa 2: 113% de ocupação
Aldeias Infantis SOS
Casa 1: 100% de ocupação
Casa 2: 100% de ocupação
Casa 3: 110% de ocupação
Casa 4: 100% de ocupação
Casa 5: 100% de ocupação
Casa 6: 100% de ocupação
Casa 7: 120% de ocupação
Em resumo, o Conselho Tutelar avalia que a lotação e superlotação generalizadas mostram que o cenário na política de acolhimento institucional é crítico.
A vice-presidente da Comissão da Infância e Juventude da OAB, Franciane Fruch, vê essa superlotação com preocupação.
"Tirar uma criança ou adolescente da própria casa já é uma situação muito triste para a criança, muito constrangedora. Ela tem que ser o melhor possível acolhida por esse abrigo. Então, ser colocada num local onde já está superlotado não é bom para sua saúde física ou mental", ressalta Franciane.
➡️A prefeitura de Campinas coordena apenas o Centro Municipal de Proteção à Criança e ao Adolescente. No entanto, o órgão custeia, por meio de convênio, os demais locais de acolhimento, que possuem administração própria.
Em nota, a Aldeias Infantis SOS informou que "não há previsão para realizar acolhimento emergencial e esclarece, ainda, que a gestão de vagas de encaminhamentos e dos serviços de acolhimento é de responsabilidade do Município".
O g1 procurou as demais entidades, mas até a publicação desta reportagem não obteve resposta
Fortalecimento da família
Campinas (SP) enfrenta superlotação em abrigos para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade
Reprodução/EPTV
Para o conselheiro tutelar Adecir Mendes, o acolhimento institucional é a última consequência de políticas públicas que não funcionaram nas etapas anteriores. Ele acredita que a criação de novas vagas em abrigos não resolve o problema.
“Criar novos abrigos, criar novas casas, não é suficiente. Eu acredito que isso é uma medida paliativa”, diz.
Ele defende o fortalecimento da família extensa e políticas integradas envolvendo áreas como educação, cultura, assistência social e segurança pública.
O conselheiro relata que, ao conversar com crianças acolhidas, o sentimento mais frequente é o de rejeição.
“O sentimento que ele tem lá é um sentimento de que ele é uma peça que ninguém quer”, afirma. Para ele, o Conselho Tutelar atua apontando falhas e auxiliando o poder público, mas a solução depende de uma ação conjunta do Estado, da família e da sociedade.
O que diz a Prefeitura
A secretária Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro, disse à EPTV que "nenhuma criança deixou de ser acolhida", mesmo diante da superlotação. Segundo ela, quando há aumento da demanda, a Prefeitura amplia vagas e recorre às casas de passagem.
“O nosso principal objetivo é que essa criança ou adolescente, tendo a necessidade de abrigamento, ela receberá esse abrigo”, disse.
Vandecléia informou que o município abriu uma nova casa de passagem e dois novos abrigos em 2025, além de enviar à Câmara um projeto de lei de guarda subsidiada. Ela explicou que a ocupação elevada também está ligada ao acolhimento de grupos de irmãos, que não podem ser separados, o que limita a distribuição das vagas.
Sobre a avaliação do Conselho Tutelar de que há falhas no sistema de prevenção, a secretária afirmou que toda violação de direitos indica falhas, mas negou omissão do poder público. Segundo ela, a Prefeitura tem ampliado vagas, fortalecido o acompanhamento das famílias e incentivado alternativas como família acolhedora e guarda subsidiada.
Em nota, a pasta explicou que as Casas de Passagem concentram os acolhimentos emergenciais e que funcionam apenas como porta de entrada até o encaminhamento de cada caso, e que enviou à Câmara um projeto de lei para uma alternativa ao acolhimento institucional.
Veja a nota na íntegra:
"A Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social informa que, por determinação da Vara da Infância e Juventude (Portaria nº 01/2025), os acolhimentos institucionais emergenciais realizados pelo Conselho Tutelar e por demanda espontânea concentram-se nas Casas de Passagem (Casa Betel). Os demais serviços de acolhimento não realizam ingressos emergenciais sem determinação judicial.
As Casas de Passagem são serviços provisórios e funcionam como porta de entrada em situações urgentes, enquanto se aguarda o estudo psicossocial e a definição de encaminhamento pela rede e pelo sistema de Justiça, o que pode ocasionar variações na ocupação.
Campinas dispõe de uma rede de acolhimento com diferentes modalidades, totalizando 512 vagas pactuadas. Em 2025, o município implantou uma nova Casa de Passagem, com 40 vagas, e dois novos abrigos, com 20 vagas cada. Para 2026, está prevista a implantação de mais um abrigo, com 20 vagas, e a ampliação de 10 vagas na Casa de Passagem, além da adoção de medidas de qualificação do fluxo.
A Prefeitura também encaminhou à Câmara Municipal projeto de lei que institui a Guarda Subsidiada, alternativa ao acolhimento institucional que fortalece o cuidado por família extensa ou por pessoas com vínculo afetivo, com acompanhamento técnico e subsídio financeiro, priorizando a convivência familiar e comunitária".
Histórico
A superlotação nos locais de acolhida para crianças e adolescentes não é novidade na metrópole. Dados da Prefeitura de Campinas mostram que entre janeiro e abril de 2024 foram realizados 198 acolhimentos. Já no primeiro quadrimestre de 2025 foram 413 acolhimentos, uma alta de 108,5%.
Em outubro de 2024, um levantamento feito com abrigos para crianças e adolescentes, e entidades de apoio á mulheres em situação de violência, revelou um cenário semelhante, de 73% de lotação ou funcionamento acima da capacidade.
Na época, a secretária Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Wandecleya Moro, disse à EPTV que essa situação não é normal na rede de proteção às crianças de Campinas, seja em abrigos ou na casa de passagem.
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